fbpx

Ivandro Maocha, um moçambicano a competir com Netflix

Ivandro Maocha é cineasta há mais de 15 anos e, mais do que produzir as suas obras, decidiu criara NetKanema com objectivo de devolver o cinema moçambicano ao povo.

Inspirado inicialmente pelo movimento Kuxa Kanema, desenvolvido nos anos oitenta como uma forma de fazer o cinema florescer em Moçambique, a plataforma Netkanema conta com mais de dezenas de filmes que muitas vezes passam despercebidos aos olhos dos moçambicanos.

“A ideia veio de uma nostalgia do que fazia parte da cultura moçambicana na década 80, ir ao cinema e assistir os poucos filmes que existiam dentro do projecto do Kuxa kanema”.

Ivandro Maocha

O cineasta relembra que foram tempos de ouro do cinema nacional, motivados pelo então primeiro presidente de Moçambique Samora Moises Machel.

Com o Netkanema, Maocha busca o renascimento desses tempos dourados, e com ajuda da internet, devolver o cinema ao povo de forma mais rápida. E assim recuperar a industria que encontra-se em um estado de “decadência”.

“Aí é que está a ideia, de que maneira, poderia ajudar a divulgar o cinema que existe, porque da pesquisa que fiz junto dos reguladores do cinema e cineastas constatei que muitos tem arquivos gigantes de obra, eu encontrei mais dezenas de filmes”, conta.

Com a descoberta, Maocha questionou-se: como é que existem mais de 50/100 filmes e ninguém conhece? Netkanema é a resposta à falta do conhecimento que se tem do público sobre estes filmes.

A falta de união no cinema moçambicano

Na localização dos filmes para a sua colocação na plataforma, a falta de união no cinema foi um dos desafios enfrentados por Ivandro Maochas.

“Os cineastas acabaram criando os seus ciclos, não há uma união. Cada cineasta tornou-se uma entidade individualista, começou a tentar os seus próprios caminhos, e o cinema começou a ficar disperso”, e em resultado “cada realizador está fazer um filme para um grupo de pessoas”

Explica

A lista dos desafios inclui também a falta de união entre a velha e a nova geração do cinema moçambicano. Enquanto a velha guarda abraçou a causa, os mais jovens ainda não olham com bons olhos, considerando que é apenas mais alguém querendo enriquecer às suas custas e “não acreditam que uma plataforma possa unir uma sociedade”, revelou colocando este como o maior desafio.


Leia também:

Para a disponibilização de filmes, a regra é clara: “eles devem ser moçambicanos”. Em seguida, surge o desafio de diferenciar esses filmes com base em suas características, desde os critérios de qualidade necessários para serem chamados de filmes até a competição com o cinema internacional.

A situação resultou na criação de categorias na plataforma como “cinema popular” que leva a conhecer todos que fortalecem o cinema com o que tem. Em resultado da inovação Ivandro descobriu novos realizadores, e talentos incríveis.

Ao público, 70% dos conteúdo presente pode ser acessado de forma gratuita, como também paga mensalmente no valor de 200 meticais, cobrança que nem é justa aos olhos do Ivandro, porque alguém com o mesmo valor consegue assinar Netflix e ter todos filmes do mundo.

Ainda com esta abertura, a falta de interesse continua como a dor de cabeça “sempre que vejo algum interesse, é porque alguém trabalhou em divulgação ou porque pagamos publicidade, então, vês o pico a subir”, revela, assumindo que poucos sabem da existência de obras gratuitas.

Uma visão para o audiovisual em Moçambique

Em particular ao cinema, ainda há muitas lacunas por preencher, como a falta da aposta no cinema da parte dos presidentes que sucederam o Samora Moisés Machel.

“Os estadistas que vieram depois do Samora, não tinham como foco o audiovisual. Acreditam talvez que isso é apenas missão do Instituto Nacional de Cinema, Ministério da Cultura”, conta afirmando que ainda não conseguiram “olhar para o cinema como algo que bem feito traria benefício para a sua administração”.

“A gente conhece Samora Machel e seus discursos porque ele fazia questão de documentá-los”.

Outro ponto é a falta de financiamento que poderia de alguma forma, ajudar na divulgação dos filmes locais e potencializa-lo.

Quatros anos da criação da nova casa ao cinema local, Ivandro ainda não teve retorno do financiamento, e reconhece que “em condições normais tu não ficas quatro ano a tirar dinheiro”.

A grande lição nisso tudo é que “temos que fazer as coisas baseados numa motivação e num propósito, porque de outra maneira, qualquer dificuldade que aparece no caminho a tendência é desistir.

Continuar a acreditar que da noite para o dia Netkanema pode ser a plataforma mais acessada em Moçambique é o que lhe move numa perspectiva de “acreditar que aquilo que projetamos é inspiração divina. Se contamos com Deus, podemos ter a certeza de que dará certo.”

Revista Kabum Digital Banner
Artigos relacionados

Subscreva-se à nossa newsletter. Fique por dentro da tecnologia!

Total
0
Share