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Mobile Money em África: Cresce, mas Ainda não Chega a Todos

Dinheiro móvel é a maior história de inclusão financeira do continente. Também é, ainda, a maior história de exclusão.

Dinheiro móvel é a maior história de inclusão financeira do continente. Também é, ainda, a maior história de exclusão.

Os números são impressionantes. Em 2026, mais de 600 milhões de contas mobile money activas em África, movimentando 1,4 biliões de dólares por ano. M-Pesa, MoMo, eMola, EcoCash, Orange Money, Airtel Money, os nomes diferem por país, o impacto é o mesmo. O continente africano lidera o mundo em adopção de dinheiro móvel, com 70% das transacções globais de mobile money a acontecerem aqui.

E, no entanto, 40% dos adultos africanos continuam sem acesso formal a serviços financeiros. A geografia da exclusão é familiar: norte do Quénia, interior da RDC, zonas rurais de Moçambique e Angola, regiões do Sahel.

Mobile Money em África: o Sucesso do M-pesa e os seus Filhos

A história começa no Quénia em 2007. O M-Pesa, lançado pela Safaricom, transformou o país em laboratório global de dinheiro móvel. Em 2010, mais de 70% dos adultos quenianos usavam M-Pesa. Em 2026, é praticamente impossível operar economicamente no Quénia sem ele.

O modelo expandiu-se. MTN MoMo na Nigéria, Gana, Costa do Marfim. Airtel Money em quase toda a África central. M-Pesa expandiu-se para Moçambique, Tanzânia, RDC, Egipto. Cada operador adaptou a sua versão.

Os números actuais (2026): 600 milhões de contas activas em África. 1,4 biliões de dólares em transacções anuais. 70% das transacções globais de mobile money acontecem em África. 52% dos adultos africanos usam alguma forma de mobile money.

A Geografia da Exclusão

Apesar dos números, 40% dos adultos africanos continuam fora. Quem são?

Maioritariamente: mulheres rurais, populações em zonas com cobertura precária, idosos sem literacia digital, refugiados sem identificação, e pessoas em situação económica extrema (que não têm sequer telemóvel).

A geografia da exclusão coincide com a geografia da pobreza extrema. Sahel (Mali, Níger, Burkina Faso, Chad): mais de 60% dos adultos sem mobile money. RDC interior: cobertura limitada, telecomunicações frágeis. Norte do Moçambique (Cabo Delgado, Niassa): conflito e deslocamento limitam adopção. Norte do Quénia (Turkana, Garissa): cobertura geográfica irregular.

Os Bloqueios Actuais

Cinco bloqueios principais. Cobertura móvel insuficiente: sem rede, não há mobile money. Falta de identificação: muitos serviços exigem documento oficial que pessoas em situação irregular não têm. Literacia digital limitada: idosos e pessoas com pouca escolaridade têm dificuldade em usar interfaces complexas. Falta de pontos de cash-in/cash-out: o sistema só funciona se houver agentes locais para depositar e levantar dinheiro. Custo das transacções: para utilizadores em extrema pobreza, as taxas de mobile money (1-3%) são significativas.

O Caso Moçambicano

Em Moçambique, o M-Pesa, o eMola (Movitel) e o e-Mola Vodacom (não confundir) competem por mercado. Em 2026, mais de 11 milhões de contas activas, penetração de cerca de 33% nos adultos.

O contraste rural-urbano é severo. Maputo: mais de 75% dos adultos usam mobile money. Niassa, Cabo Delgado, Tete (zonas interiores): menos de 25%.

A solução tradicional, instalar mais agentes, esbarra na economia agente: agentes precisam de volume mínimo para serem sustentáveis, e zonas rurais com pouca actividade económica não geram esse volume.

As Novas Fronteiras

Três tendências emergem para resolver a exclusão.

Mobile money offline: tecnologias que permitem transacções mesmo sem cobertura, sincronizadas quando o telemóvel volta a ligar-se. Projectos piloto em curso no Quénia e no Mali.

Identidade digital: como discutido no artigo sobre o Ghana Card, integração de identidade nacional com mobile money pode eliminar barreira da documentação.

Mobile money para refugiados: parcerias com ACNUR para oferecer serviços a populações deslocadas. Já em curso no Quénia, na Etiópia e no Uganda.

O que Isto Significa para Moçambique

Para Moçambique, a prioridade não é “mais mobile money em Maputo”. É “mobile money em Mecanhelas”. Em Cabo Delgado deslocado. Em zonas rurais do Niassa e da Zambézia.

Isso exige investimento em três frentes: cobertura móvel em zonas remotas (4G, mesmo que limitado a voz e SMS); rede de agentes subsidiada inicialmente, para chegar a massa crítica; literacia digital através de programas comunitários.

Nenhum destes investimentos é tecnicamente complexo. Todos exigem vontade política, parceria público-privada, e tempo. Mas o retorno, em inclusão financeira, em crescimento económico, em estabilidade social, é potencialmente enorme. O M-Pesa, em Maputo, é êxito. A inclusão financeira em Mecanhelas, ainda é projecto.

 

 

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