A FINTECH.MZ-Associação Moçambicana de Fintechs arrancou ontem com a sétima edição da Semana das Fintechs de Moçambique sob o lema “Do Digital ao Inteligente, Inovação, IA e Novos Ecossistemas Financeiros”.
No que foi o primeiro dia, o evento, realizado em formato virtual, reuniu especialistas de Portugal, Brasil e Moçambique para debater as implicações da entrada em vigor do Aviso n.º GBM 2026, publicado pelo Banco de Moçambique a 2 de Março de 2026, que institui o METIX, o sistema nacional de pagamentos instantâneos.
O METIX representa uma nova era no sistema financeiro nacional, ao impor que as transferências interbancárias passem a ser processadas em tempo real, eliminando os prazos de até 48 horas que caracterizavam as transacções anteriores no sector bancário.
A sessão teve a sua abertura feita por Maria Teresa, do Banco de Portugal, que apresentou a experiência europeia com as transferências imediatas, destacando que Portugal passou de uma utilização residual para um cenário em que 70% das transferências já são imediatas, crescimento de 1.500% em número de operações no último trimestre de 2025 face ao período de 2024.
O ponto de vista do mercado moçambicano
No primeiro painel, Sérgio Gomes, da M-Pesa, Stélio Matias, do Moza Banco, e Mohamed Adam, representando a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), debateram, sob a moderação de Thaise Gomes, as implicações práticas do METIX para os diferentes segmentos do mercado.
Na sua intervenção, Sérgio Gomes foi directo ao estabelecer uma distinção que tem gerado confusão no mercado: o METIX, na sua fase actual, refere-se às transacções interbancárias, não às transacções interoperáveis entre carteiras móveis e bancos, que já funcionam em tempo real há vários anos.
“As transacções das entidades de moeda electrónica sempre foram imediatas. O que estamos a ver é o lado bancário chegar a esta fase onde as carteiras já estavam.”
Para Gomes, as carteiras móveis são, assim, “um acelerador” que o METIX deve alavancar, e não um sistema paralelo.
Outras notícias para ler:
Stélio Matias reconheceu que o aviso chegou “com pouco tempo para executar” e que a resposta da banca passou por aplicar os princípios que já tinham guiado a integração com as carteiras.
Para Matias, há necessidade de envolver os operadores com antecedência suficiente para que possam contribuir para a construção dos normativos, em vez de apenas reagir à sua entrada em vigor.
Já Mohamed Adam, do ponto de vista do sector privado e das empresas, considerou que o METIX resolve um problema concreto: as transferências interbancárias demoravam 48 horas, com limitações de horário que criavam constrangimentos de liquidez.
“O novo sistema elimina esses obstáculos.” Adam salientou também a importância de integrar plenamente as carteiras móveis, dado o carácter maioritariamente informal da economia moçambicana.
Os desafios reais: disputas e sustentabilidade
Durante este painel, foram identificados desafios importantes: como é o caso da gestão de disputas resultantes de erros de transferência, e a infra-estrutura actual não oferece um mecanismo centralizado de reversão ou mediação. Gomes defendeu que a SIMO (Sociedade Interbancária de Moçambique) é a entidade natural para centralizar esta capacidade, sem a qual os operadores continuarão a suportar custos operacionais elevados para resolver situações individualmente.
Quanto à sustentabilidade do modelo de negócio, Gomes foi o mais frontal: a M-Pesa opera há três anos em regime de taxa zero para transacções internas e interoperáveis, e a experiência mostra que a gratuitidade, sem outras fontes de receita, limita a inovação.
O risco é que os comerciantes retirem os terminais POS e adoptem as transferências directas como método de pagamento exclusivo, eliminando o espaço para soluções de pagamento mais sofisticadas e eliminando, ao mesmo tempo, a barreira de entrada para novos operadores.
Já Stélio Matias enquadrou a questão numa perspectiva de “soberania nacional”: os bancos terão de ser mais criativos na monetização, encontrando formas de gerar valor sem transferir custos para o consumidor final.
As lições do Brasil para Moçambique
A última sessão do dia esteve dedicada a Diego Perez, presidente da Associação Brasileira de Fintechs, que partilhou os resultados do Pix, o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central do Brasil. Actualmente, 172 milhões de brasileiros utilizam o Pix mensalmente, o equivalente a 95% da população adulta, e mais de 60 milhões de pessoas acederam a serviços financeiros pela primeira vez graças ao sistema.
Para Perez, há duas prioridades que Moçambique deve ter em conta na implementação do Pix: reforçar a colaboração entre o sector público e o privado na construção e operacionalização do sistema; e proteger a livre concorrência, para que o METIX beneficie tanto as grandes instituições como os operadores de menor dimensão.
A Semana das Fintechs de Moçambique prossegue até quinta-feira, com sessões diárias, contando com a participação de mais especialistas do sector financeiro para debater os principais desenvolvimentos na transformação do mesmo.





