Operadores começam a desligar redes antigas. Para milhões de utilizadores, o caminho passa por substituir o telemóvel, ou ficar sem rede.
Vários operadores africanos começaram a desligar redes 2G e 3G em zonas urbanas para libertar espectro para 4G e 5G. A transição é tecnicamente óbvia. Socialmente, é dolorosa.
Estima-se que, em África, mais de 200 milhões de telemóveis activos ainda dependem de 2G ou 3G. Esses utilizadores são, em grande parte, populações rurais ou de baixos rendimentos. Substituir o aparelho custa entre 50 e 150 dólares, equivalente a um a três meses de salário em muitas regiões.
Adeus ao 2G e 3G: porque Desligar
A justificação técnica é forte. As redes 2G e 3G ocupam espectro que pode ser melhor usado por 4G e 5G. O 2G, em particular, é ineficiente: precisa de mais antenas para a mesma cobertura, consome mais energia, e oferece serviços limitados (voz e SMS, basicamente).
Para operadoras, manter 2G e 3G activos enquanto se constrói 4G e 5G significa operar três redes paralelas. É caro. Cada antena multibanda tem custo de capital e de operação.
Comercialmente, há também pressão. Os serviços de valor acrescentado (streaming, mobile money, navegação web) só funcionam decentemente em 4G ou 5G. Manter clientes em 2G é manter clientes que rendem pouco.
Quem está a Desligar
Quénia (Safaricom): desligamento gradual do 2G iniciado em 2025 em zonas urbanas; meta de extinção total em 2027. África do Sul (MTN, Vodacom): 3G desligado em centros urbanos desde 2024; 2G a seguir-se em 2027-2028. Egipto: programa de transição em discussão. Marrocos: 2G mantido para zonas rurais; 3G em fim de vida em cidades. Nigéria (MTN, Airtel): debate público sobre calendário, sem decisão firme.
O Problema Social
O verdadeiro problema não é técnico. É social. Para 200 milhões de utilizadores africanos, a substituição forçada do telemóvel é dor económica real.
Em Moçambique, telemóveis 2G ainda têm peso significativo no mercado, sobretudo em zonas rurais onde a cobertura 4G é irregular. Um telemóvel Nokia 2G custa 1.500 meticais. Um smartphone básico custa 7.000 meticais, quatro a cinco vezes mais.
A transição para 4G não pode ser feita “às cegas”. Tem de considerar quem fica para trás.
Os Modelos de Transição
Há três modelos de transição possíveis. Subsídio público: o Estado financia parcialmente a aquisição de smartphones para utilizadores 2G actuais. Funcionou no Brasil e em partes da Índia. Programas de troca: operadores oferecem desconto significativo na troca de telemóveis 2G por smartphones. Custo absorvido por margens futuras. Moratória rural: 2G mantido em zonas rurais por mais 5-10 anos, enquanto cidades migram. Funcionou em Marrocos.
Cada modelo tem vantagens e desvantagens. A escolha óptima provavelmente combina elementos dos três.
“A transição vai chegar a Moçambique. A pergunta não é ‘se’, é ‘como’: com subsídio, sem subsídio, com programa de troca, com moratória para zonas rurais. As decisões de 2026 vão definir quem fica com cobertura em 2028.”
O que está em Discussão em Maputo
O INCM tem grupo de trabalho dedicado à transição tecnológica desde 2024. O relatório preliminar, ainda confidencial, recomenda moratória 2G até 2032 em zonas rurais, e desligamento gradual em zonas urbanas a partir de 2028. As operadoras concordam em parte.
A decisão final depende de equilibrar três interesses. Operadores: querem libertar espectro rapidamente para 4G/5G. Estado: quer maximizar receita de espectro mas evitar custos sociais. Utilizadores: precisam de tempo para migrar.
O equilíbrio mais provável é transição em três fases: 2026-2028 com investimento massivo em cobertura 4G rural; 2028-2030 com desligamento de 3G em zonas urbanas; 2030-2032 com desligamento de 2G em zonas urbanas e 2G mantido em zonas rurais com cobertura limitada.
A Janela de Oportunidade
Para o sector de telecomunicações moçambicano, há oportunidade clara: investir em redes 4G/5G de qualidade em zonas onde hoje só há 2G ou 3G. Mais cobertura significa mais utilizadores migráveis, mais serviços de valor acrescentado, mais receita por utilizador.
Para o sector de retalho de telemóveis, há outra oportunidade: preparar-se para vaga de substituições. Quem tiver canais estabelecidos, capacidade de financiamento ao consumo, e parceria com operadoras, vai ganhar dezenas de milhões de meticais em volume durante a transição.
A transição vai acontecer. A pergunta não é “se”, é “quem está preparado”. E em Moçambique, ainda é cedo demais para qualquer das respostas ser confiante.
Mais sobre adeus ao 2G e 3G na cobertura internacional da Kabum Digital. Fonte oficial: GSMA.



