Com o ANGOSAT-2 operacional e novo projecto em fase de avaliação, Luanda consolida-se na elite espacial continental.
O continente africano tem agora cinco potências espaciais reconhecidas: Egipto, África do Sul, Nigéria, Marrocos e Angola. A inclusão angolana, recente, deve-se ao êxito do ANGOSAT-2 (operacional desde 2023) e ao planeamento avançado do programa lunar continental.
Pode parecer exagerado, para um país que ainda enfrenta desafios básicos, ter ambição espacial. Mas há razões estratégicas profundas.
Programa espacial de Angola: porque um País em Desenvolvimento Investe no Espaço
Três razões justificam programas espaciais nacionais, mesmo para países com PIB per capita modesto.
Soberania de comunicações: satélite próprio significa que o país controla, em parte, a sua infra-estrutura de telecomunicações. Não depende exclusivamente de operadores estrangeiros. Para Angola, o ANGOSAT-2 fornece capacidade para conectividade rural e governamental sem necessidade de alugar capacidade de satélites estrangeiros.
Observação de território: imagens de satélite são essenciais para gestão agrícola, monitorização de desflorestação, gestão de fronteiras, e detecção de actividades ilegais (pesca, mineração). Programas espaciais nacionais permitem acesso garantido a essas imagens.
Indústria de alto valor: o sector espacial gera empregos altamente qualificados, atrai talento internacional, e cataloga conhecimento que tem efeitos spillover noutras áreas (telecomunicações, ciência de materiais, software).
O Angosat-2
O ANGOSAT-2 foi lançado em Outubro de 2022, depois do fracasso do ANGOSAT-1 (lançado em 2017, perdido após problema técnico). O custo total: cerca de 320 milhões de dólares, financiado por linhas de crédito russas.
Capacidades: cobertura sobre toda a África subsahariana; banda C, Ku e Ka; vida útil prevista de 15 anos; capacidade para mais de 15.000 canais de voz simultaneamente.
Os primeiros 30 meses de operação foram, segundo o GGPEN (Gabinete de Gestão do Programa Espacial Nacional), estáveis e dentro das expectativas. Angola passou a oferecer capacidade de telecomunicações via satélite a outros países africanos, contribuindo para receita externa em divisas.
O Programa Lunar
Angola pretende juntar-se à missão lunar pan-africana, primeira iniciativa espacial conjunta do continente. O projecto, coordenado pela Agência Africana do Espaço (AfSA), prevê CubeSats africanos enviados para órbita lunar até 2030.
A contribuição angolana inclui financiamento parcial; personal técnico (engenheiros e cientistas formados em parceria com a Rússia); infra-estrutura terrestre (estação de telemetria em Cuanza-Sul).
A missão é simbólica mais do que comercial. Mas o seu valor diplomático e científico é considerável, coloca Angola, e África, na conversa lunar internacional.
Para Moçambique, o Referencial
Moçambique não tem programa espacial nacional. Não tem satélite próprio. Não tem agência espacial. Para muitos, isto não é problema, há prioridades mais urgentes.
Mas há custos invisíveis. Dependência total de imagens de satélite estrangeiras para agricultura, monitorização climática, gestão territorial. Capacidade limitada de telecomunicações por satélite em zonas remotas. Ausência da conversa espacial continental, onde decisões sobre o futuro digital de África estão a ser tomadas.
A capacidade espacial africana já existe. Falta saber quem se associa e quem fica fora.
“Não é sobre ir à Lua. É sobre ter o conhecimento que a viagem à Lua produz, e ter assento na mesa onde se decidem as próximas viagens.”
O Custo de não Estar
Programas espaciais são caros. Mas a alternativa também é cara, apenas a custo invisível. Imagens de satélite que Moçambique compra a fornecedores estrangeiros custam milhões anuais. Capacidade de telecomunicações alugada custa milhões anuais. Talento nacional em engenharia espacial migra para outros países.
Investir num programa espacial moçambicano modesto, não como o egípcio ou o sul-africano, mas como o ruandês (que tem programa nacional inteligente e barato), poderia poupar dinheiro a médio prazo. E posicionaria o país onde, hoje, não está.
A discussão merece ser feita. Não está a ser.
Mais sobre programa espacial de Angola na cobertura internacional da Kabum Digital. Fonte oficial: Agência Espacial de Angola.



