A Agência de Transformação Digital e Inovação (ATDI) e a Huawei assinaram, na República Popular da China, um acordo de cooperação estratégica orientado para a inovação tecnológica, eficiência administrativa e melhoria da qualidade dos serviços prestados ao cidadão moçambicano. O memorando surge num momento em que o continente africano acelera a corrida pela Inteligência Artificial, e Moçambique procura não ficar para trás.
O memorando foi rubricado pelo Presidente do Conselho de Administração da ATDI, Eng. Adilson Gomes, e pelo Director-Geral da Huawei em Moçambique, Zhang Junming, e estabelece um quadro de actuação que abrange quatro pilares fundamentais: infraestrutura digital avançada, desenvolvimento de capacidades em IA, formação profissional e modernização de serviços públicos. A Huawei, que já opera em Moçambique há mais de uma década, reforça assim o seu posicionamento como parceiro estratégico na transformação digital do país.
“Esta cooperação dá-nos a possibilidade de formar quadros que, até hoje, tinham de procurar certificação fora do país.”
Huawei Moçambique: centros de dados e modelos linguísticos
Entre as prioridades do acordo, destaca-se o desenvolvimento de centros de dados de nova geração e plataformas de computação em nuvem, que irão suportar soluções baseadas em Inteligência Artificial. A infraestrutura actual do país é limitada nesta área, e a criação de centros locais de processamento de dados é vista como condição prévia para qualquer estratégia séria de IA.
Mas talvez o ponto mais ambicioso seja a criação de modelos linguísticos em língua portuguesa, adaptados à realidade moçambicana, um passo crucial para garantir que a IA não fale apenas inglês e mandarim, mas também o português. A maioria dos grandes modelos de linguagem é treinada predominantemente em inglês, o que limita a sua utilidade em contextos lusófonos. Um modelo calibrado para o português moçambicano poderia transformar desde a administração pública até ao atendimento bancário.
A parceria prevê ainda a formação de cerca de 5.000 quadros nacionais ao longo dos próximos três anos, em diferentes níveis e áreas de especialização, desde engenharia de dados até à gestão de infraestruturas digitais. O programa inclui certificações Huawei, estágios práticos e capacitação de formadores,um modelo concebido para criar efeito multiplicador e não apenas transferência pontual de conhecimento.
Saúde, educação e administração pública no centro
Na vertente de modernização, o acordo contempla a introdução de soluções inteligentes em sectores-chave como a saúde, a educação e a administração pública. Na saúde, a IA pode apoiar o diagnóstico clínico em zonas rurais onde faltam médicos especialistas. Na educação, plataformas adaptativas poderiam personalizar o ensino para milhões de alunos. Na administração pública, chatbots e sistemas automatizados poderiam reduzir filas e burocracia nos balcões de atendimento.
O objectivo declarado é melhorar a eficiência, a qualidade e o acesso aos serviços prestados ao cidadão, utilizando a IA como motor de transformação. Mas o sucesso dependerá, em grande medida, da capacidade de execução e do investimento continuado em conectividade, sem internet fiável em todo o território, a IA permanece uma promessa urbana.
Com este acordo, a ATDI reforça o seu papel como entidade central na coordenação da transformação digital em Moçambique, alinhando-se com as prioridades do Governo de modernização do Estado e de reforço da soberania digital. O tempo dirá se esta parceria se traduz em resultados concretos ou se fica no domínio dos memorandos, mas o sinal é claro: Moçambique quer ter lugar na mesa da IA.



