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O cinema moçambicano entrou na era da IA, e começou no Ngungunhane

Marcelll Rutschmann trocou as luzes dos estúdios convencionais pela inteligência artificial. A partir de Maputo, reconstrói o Império de Gaza e explica por que o prompt é a nova forma de realizar.

Marcelll Rutschmann trocou as luzes dos estúdios convencionais pela inteligência artificial. A partir de Maputo, reconstrói o Império de Gaza, e explica por que o prompt é a nova forma de realizar.

Marcelll Rutschmann conhece bem o peso de uma câmara. Vencedor do Museke Awards, realizador premiado e produtor com um percurso sólido na cena audiovisual, o portfólio de DJ Marcelll é extenso e diverso, marcado por colaborações com nomes de referência da música africana e por trabalhos que cruzam fronteiras entre o cinema, o videoclipe e a publicidade. Mas o músico e cineasta moçambicano radicado em Maputo trocou as luzes dos estúdios convencionais por um novo tipo de ferramenta: a inteligência artificial. E o resultado é um dos projectos mais ambiciosos a sair de Moçambique nos últimos anos, um filme sobre a vida de Ngungunhane, o último imperador do Império de Gaza.

“Esse momento veio quando percebi que a IA deixava de ser apenas um efeito visual e passava a ser um sistema de produção completo. Como realizador, sempre trabalhei com limitações, orçamento, logística e escala. A IA mudou isso completamente. Quando comecei a testar estas ferramentas, percebi que podia criar mundos, personagens e atmosferas com um nível de controlo criativo que antes exigia equipas enormes. Foi aí que entendi: isto não é uma tendência, é uma nova linguagem cinematográfica.”, DJ Marcelll

Marcelll define-se como alguém que vive entre dois mundos: o humano e o algorítmico. O seu processo continua a ser cinematográfico, ideia, narrativa, emoção, linguagem visual, mas a IA funciona como extensão dessa visão. O mais importante, sublinha, não é a ferramenta em si, mas o prompt como forma de realização.

“Eu não estou a ‘gerar imagens’, estou a dirigir cenas através de linguagem.”, DJ Marcelll

Ngungunhane: dar escala a uma história africana

O projecto sobre Ngungunhane nasceu de uma necessidade pessoal de contar uma grande história africana com dimensão global. A figura histórica do último imperador do Império de Gaza é, segundo Marcelll, extremamente poderosa mas pouco explorada no cinema internacional. A IA ofereceu-lhe a oportunidade de reconstruir o império com uma escala que, em produção tradicional, exigiria milhões: cidades, exércitos e ambientes épicos.

Mas há um detalhe que distingue a sua abordagem. Marcelll não quer um filme inteiramente gerado por IA. Quer trabalhar com actores reais, captar performance, emoção, expressão facial, linguagem corporal, e depois transferir tudo isso para o universo visual da IA, num processo que compara ao trabalho da Pixar Animation Studios.

“O acting continua a ser humano. A IA entra como instrumento de transferência e amplificação.”, DJ Marcelll

A questão da responsabilidade histórica não lhe escapa. Marcelll garante que o projecto envolve especialistas com conhecimento profundo do contexto cultural e histórico, procurando um equilíbrio entre rigor, respeito cultural e liberdade narrativa.

África como potência narrativa

Para Marcelll, a IA elimina uma das maiores barreiras para criadores africanos: o acesso a orçamento. Durante anos, contar histórias africanas com escala dependeu sempre de financiamento externo. Agora, um criador com visão pode construir mundos inteiros com recursos mínimos. O dinheiro não deixa de importar, mas o talento volta a estar no centro.

Quando lhe perguntamos o que falta para mais criativos moçambicanos adoptarem a IA, a resposta é directa: acesso a ferramentas e internet de qualidade, formação prática e abertura à experimentação. O talento existe, o desafio é estrutural.

“Como descreve a cobertura nacional da Kabum Digital sobre Ngungunhane e a IA, e também a referência internacional do IMDb, o futuro vai pertencer a quem tiver identidade forte, não apenas recursos.”, DJ Marcelll

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