A empreendedora ugandesa Sandra Nabakka está a transformar a forma como pequenos agricultores da África Oriental gerem as suas explorações. Através da Sandi AI, empresa que fundou em 2025, combinou inteligência artificial, dados de satélite, sensores de solo e energia solar para automatizar decisões de rega que, até agora, dependiam da experiência do agricultor e do olho para o clima.
A solução está já em uso em mais de 4.100 grupos de agricultores do Uganda, Quénia e Tanzânia, segundo dados divulgados pela publicação africana We Are Tech Africa. E a promessa técnica é ambiciosa: reduzir o consumo de água em até 90%, aumentar a produtividade e baixar os custos operacionais de quem trabalha a terra.
Como funciona a Sandi AI
O sistema desenvolvido por Sandra Nabakka assenta em várias camadas de dados. Imagens de satélite permitem prever condições meteorológicas, analisar a humidade do solo e avaliar as necessidades de água de cada cultura. Sensores instalados no terreno refinam essa análise, transmitindo em tempo real leituras de humidade e temperatura. E bombas alimentadas por energia solar fornecem a quantidade certa de água a cada zona da parcela, sem depender de combustíveis fósseis.
Ao combinar estes elementos, a Sandi AI substitui a rega por rotina, em que o agricultor decide horários por hábito, por uma rega orientada por dados, em que o sistema só actua quando o solo realmente precisa. Para culturas em regiões onde a água é escassa, o impacto é imediato: menos desperdício, menos gasto energético, mais produção por hectare.
Uma barreira financeira ultrapassada com um modelo colectivo
A adopção de tecnologia agrícola por pequenos produtores esbarra habitualmente num obstáculo simples: o custo inicial. Uma bomba solar, sensores de solo e acesso a análise por satélite representam um investimento que a maioria dos agricultores familiares não consegue pagar de uma só vez.
Para resolver este problema, a Sandi AI desenhou um modelo de poupança colectiva que permite aos agricultores juntar recursos e financiar progressivamente o equipamento. A empresa aplica também uma estratégia faseada: os produtores começam apenas com as bombas solares, adicionam depois os sensores de solo e, numa fase mais avançada, ganham acesso à análise completa por satélite. Este desenho permite entrar na plataforma com pouco e crescer à medida que o negócio agrícola se estabiliza.
Além do hardware, a Sandi AI disponibiliza um assistente virtual alimentado por inteligência artificial que dá conselhos directos ao agricultor: quando semear, que culturas rodar, quanto adubar. Um sistema pensado para funcionar mesmo em contextos onde a assistência técnica agrícola tradicional é rara ou distante.
Um percurso académico ligado ao desenvolvimento sustentável
Sandra Nabakka concluiu a licenciatura em Tecnologias de Informação na Ndejje University, em 2022, e obteve depois um mestrado em Inteligência Artificial para o Desenvolvimento Sustentável pela University College London, uma das universidades mais reconhecidas do Reino Unido. Antes de se dedicar em exclusivo à Sandi AI, foi managing director da Elevate Bridge Builders, uma organização focada em melhorar padrões globais de higiene e saneamento.
Esta combinação, engenharia informática, IA aplicada à sustentabilidade e experiência em impacto social, ajuda a explicar o desenho da Sandi AI. Não é uma tecnologia pensada para agricultura industrial de grande escala. É uma tecnologia desenhada para o agricultor familiar da África Oriental, onde a terra é fragmentada, o acesso à água é irregular e a informação técnica escassa.
Porque é que este caso interessa a Moçambique
Moçambique enfrenta muitos dos mesmos desafios agrícolas dos países servidos pela Sandi AI: escassez sazonal de água, dependência da agricultura de subsistência, dificuldade de acesso a tecnologia por parte de pequenos produtores e vulnerabilidade crescente às alterações climáticas. Casos como o de Sandra Nabakka mostram que soluções tecnológicas pensadas dentro de África, para África, podem chegar rapidamente a escala continental.
A trajectória da Sandi AI é também um lembrete de que o próximo capítulo da agricultura africana provavelmente não virá dos grandes fabricantes de equipamento agrícola do hemisfério norte, mas de empresárias e engenheiras africanas que conhecem, em primeira mão, o problema que estão a resolver.

