O ecossistema de startups africanas começou 2026 com força: segundo dados agregados de vários trackers, as empresas emergentes do continente captaram cerca de 705 milhões de dólares americanos entre Janeiro e Março, num crescimento de 26,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Após dois anos de correcção, 2023 e 2024 viram uma retracção significativa do capital de risco em África, os números do primeiro trimestre sugerem uma recuperação sustentada.
O Egipto liderou o ranking com aproximadamente 190 milhões de dólares, impulsionado por rondas significativas em fintech e logística. A África do Sul seguiu com 157 milhões, mantendo a sua posição como hub tecnológico do continente, enquanto o Quénia captou 94 milhões, com destaque para o ecossistema de pagamentos móveis baseado no M-Pesa. A Nigéria, tradicionalmente uma das líderes, manteve-se competitiva, com especial destaque para os sectores de fintech e logística.
A surpresa: dívida supera equity
O dado mais revelador deste trimestre é estrutural: pela primeira vez, o financiamento por dívida superou o equity na composição total do capital captado. Isso significa que mais startups estão a aceder a crédito e instrumentos de dívida em vez de ceder participações accionárias, um sinal de maturidade do ecossistema e de confiança dos financiadores no modelo de negócio destas empresas.
A expansão do crédito é particularmente relevante para startups em fase de crescimento, que precisam de capital para escalar operações sem diluir a posição dos fundadores. Instrumentos como revenue-based financing, onde o reembolso está ligado à receita e não a prazos fixos, estão a ganhar tracção, oferecendo maior flexibilidade a empresas com fluxos de caixa previsíveis.
Fintech continua a dominar
A fintech continua a ser o sector dominante, com pagamentos móveis, banca digital, credit scoring e remessas transfronteiriças a transformar o fluxo de dinheiro em economias onde grande parte da população permanece sem acesso ao sistema bancário formal. A healthtech e a agritech também registaram crescimento notável, reflectindo o interesse dos investidores em sectores com impacto social directo e mercados endémicos em África.
Para Moçambique, os números contêm uma lição e um desafio. O país não figura entre os principais destinos do capital de risco africano, apesar de ter uma população jovem, crescente urbanização e sectores como agricultura e energia com enorme potencial de inovação. Para mudar este panorama, será necessário criar condições regulatórias favoráveis, investir na formação de empreendedores e construir um ecossistema de apoio que vá além dos hackathons e das competições de pitching.
A tendência é clara: o capital está a voltar para África, mas de forma mais selectiva e com maior exigência de resultados. As startups que conseguem financiamento já não são apenas as que têm boas ideias, são as que demonstram tracção real, unit economics saudáveis e capacidade de escalar. O ecossistema africano está a amadurecer, e os 705 milhões do primeiro trimestre são a prova.



