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Sulemane Ibraimo aposta no Xichangana para o mundo digital


Sulemane Ibraimo aposta no Xichangana para o mundo digital

Quando a Ubuntu Holdings decidiu renovar o seu website institucional, acrescentou ao português e ao inglês uma terceira língua: o Xichangana, também conhecido como Xangana, falado sobretudo no sul de Moçambique. Para construir essa versão, a Ubuntu Solutions®, a marca tecnológica do grupo, recorreu a agentes de Inteligência Artificial.

Segundo a PM Services Magazine, trata-se do primeiro website corporativo em Xichangana desenvolvido inteiramente com agentes de IA. A distinção coloca uma PME moçambicana numa conversa que costuma associar a chamada Agentic AI à automação, à programação e à produtividade. Raramente, porém, essa conversa inclui as línguas africanas.

Para o fundador e CEO da Ubuntu Holdings, Sulemane Ibraimo, a decisão resume-se numa frase: “A nossa ambição também pode falar a nossa língua.”

Porque é que uma empresa escolhe o Xichangana

Um website institucional apresenta serviços e contactos, mas também comunica quem a organização é e que públicos considera seus. Por isso, a escolha das línguas funciona como uma declaração de posicionamento.

No caso da Ubuntu Holdings, cada língua cumpre uma função. O português responde ao mercado moçambicano e lusófono, enquanto o inglês abre a porta a parceiros e clientes internacionais. Por sua vez, o Xichangana liga a ambição tecnológica da empresa ao contexto cultural onde ela nasceu.

Desta forma, uma língua local passa a ocupar um espaço normalmente reservado às línguas dominantes: a apresentação institucional e a experiência digital da marca.

Como funcionaram os agentes de IA

Traduzir um conjunto de páginas é relativamente simples. Integrar uma língua numa experiência institucional completa exige mais trabalho, sobretudo quando a linguagem corporativa e o contexto cultural precisam de se manter coerentes.

Para isso, a Ubuntu Solutions® usou um fluxo de trabalho com agentes de IA. Ao contrário de um assistente que responde a pedidos isolados, um agente executa várias tarefas encadeadas dentro de um processo mais amplo. Neste caso, o processo incluiu a construção, a adaptação e a revisão do website.

Ainda assim, o trabalho não foi autónomo. De acordo com a empresa, o desenvolvimento exigiu aprendizagem, definição de direcção, avaliação de resultados e várias revisões. Os agentes executaram partes do trabalho, enquanto a equipa decidia o que fazia sentido para a marca e o que chegava ao público.

O papel humano no trabalho com a língua

Esta divisão de tarefas pesa mais quando o material de trabalho é uma língua. Um sistema de IA processa palavras e estruturas com rapidez. No entanto, o contexto, a intenção e a adequação cultural exigem uma avaliação que uma resposta tecnicamente plausível não garante.

Para as empresas que acompanham a evolução da IA, a lição é prática. Além de perguntar o que uma ferramenta consegue fazer sozinha, convém perguntar quem dirige, valida e assume a responsabilidade pelo resultado.

Inclusão digital para lá do website

A presença do Xichangana num website corporativo abre também uma conversa sobre inclusão digital. Grande parte da transformação digital africana assenta em plataformas pensadas em línguas internacionais, embora os utilizadores vivam em sociedades com muitas outras línguas.

À medida que as ferramentas de IA tornam a localização mais barata, as empresas africanas ganham margem para experimentar uma presença digital mais próxima das comunidades onde operam. Assim, a mesma lógica pode chegar à educação, aos serviços financeiros, ao atendimento ao cliente, ao comércio electrónico ou aos serviços públicos. Em todas estas áreas, a língua continua a influenciar a forma como as pessoas compreendem e usam a tecnologia.

Isto não obriga todos os websites moçambicanos a incluir todas as línguas nacionais. Afinal, cada organização tem públicos e recursos diferentes, e qualquer decisão de localização deve pesar a utilidade, a qualidade e a manutenção.

Da adopção à apropriação tecnológica

Grande parte da narrativa tecnológica sobre África gira em torno da adopção: que tecnologias o continente já usa e quão depressa acompanha os mercados mais desenvolvidos. Contudo, a inovação também acontece quando alguém aplica uma tecnologia existente a um problema que não estava no centro da sua concepção.

O projecto da Ubuntu Holdings encaixa nesta segunda categoria. Os agentes de IA vieram de fora de Moçambique, mas a decisão sobre o que deveriam ajudar a construir partiu de uma realidade moçambicana. É nesse momento que a adopção dá lugar à apropriação, ou seja, à capacidade de moldar a tecnologia segundo necessidades, culturas e ambições próprias.

Para as marcas que procuram diferenciar-se, há aqui uma pista estratégica. A identidade corporativa pode manifestar-se no logótipo e nas cores, mas também na língua, na tecnologia escolhida e na forma como a empresa representa o lugar de onde vem. Por isso, se a IA se tornar parte da infraestrutura normal das empresas, a vantagem competitiva poderá estar em saber para quê usá-la.

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