Recebe um SMS a dizer que ganhou 50 mil meticais num sorteio da Vodacom. Para activar o prémio, basta enviar 500 meticais para um número. Quem reconhece o esquema, suspira. Quem não reconhece, cai. Os ciberataques em Moçambique tornaram-se rotina, e esta é apenas a versão mais visível de um problema muito maior. Com 6,96 milhões de utilizadores de internet em 2025 e a expansão acelerada das carteiras móveis, o país tornou-se alvo atractivo para cibercriminosos locais e internacionais.
O Panorama Actual dos Ciberataques em Moçambique
Os ciberataques em Moçambique aumentaram no ritmo da digitalização. Em 2018, o país registava já mais de 1,5 milhões de ataques por mês, maioritariamente phishing, spam e malware. Desde então, a escala cresceu, com ransomware e ataques persistentes a afectarem redes governamentais, empresas e sistema financeiro.
Em 2025, com 6,96 milhões de utilizadores de internet (19,8% da população) e 17,7 milhões de ligações móveis, a superfície de exposição expandiu-se muito. Apenas 3,7 milhões de moçambicanos estão, por outro lado, em redes sociais, o que concentra risco nos mesmos canais.
A combinação de três factores cria, sobretudo, ambiente propício a ciberataques em Moçambique: infraestrutura de segurança ainda em desenvolvimento, baixa literacia digital e adopção rápida de dinheiro móvel.
Sectores Mais Visados
Os alvos preferenciais dos ciberataques em Moçambique são variados. Eis os principais.
- Serviços financeiros e dinheiro móvel. M-Pesa, e-Mola, Mkesh, bancos comerciais e plataformas fintech.
- Instituições governamentais. Portais de ministérios e entidades públicas.
- Empresas de telecomunicações. Vodacom, Movitel e Tmcel enfrentam tentativas constantes.
- Pequenas e médias empresas. PMEs sem departamento de TI dedicado são alvos fáceis.
- Cidadãos individuais. Utilizadores de redes sociais e carteiras móveis.
Tipos de Ciberataques Mais Comuns em Moçambique
Os ciberataques em Moçambique seguem padrões reconhecíveis. Eis os cinco mais frequentes.
Fraudes Via M-Pesa, e-Mola e Mkesh
É o tipo mais frequente. Os esquemas mais comuns incluem:
- Mensagens falsas de prémio. Por exemplo, “Parabéns, ganhou 50.000 MZN no sorteio Vodacom. Envie 500 MZN para activar o prémio.”
- Falsos agentes. Criminosos ligam a fingir-se funcionários da Vodacom, Movitel ou Tmcel e pedem o PIN do M-Pesa “para resolver um problema técnico”.
- Troca de SIM (SIM swapping). Os atacantes obtêm duplicado do cartão SIM usando documentos falsos, ganhando acesso a todas as contas associadas ao número.
Phishing Dirigido a Empresas
Empresas moçambicanas, sobretudo dos sectores bancário e extractivo, recebem campanhas de phishing sofisticadas. Os atacantes enviam e-mails que parecem vir de parceiros comerciais legítimos, pedindo transferências urgentes ou credenciais internas.
Ataques a Infraestruturas Governamentais
Várias plataformas governamentais enfrentaram tentativas de intrusão. Sites de ministérios foram, aliás, alvo de defacement (alteração da página inicial) e tentativas de exfiltração de dados.
Ransomware em Empresas
O ransomware continua a afectar empresas moçambicanas. Este software encripta os ficheiros da vítima e exige resgate para os desbloquear. Muitas PMEs não têm sistemas de backup adequados, o que as torna particularmente vulneráveis.
Burlas nas Redes Sociais
O Facebook é o principal palco de burlas, seguido do WhatsApp e do Telegram. Perfis falsos que se fazem passar por figuras públicas, esquemas de investimento fraudulentos e vendas fictícias de produtos multiplicam-se.
Factores Que Aumentam a Vulnerabilidade
Vários factores explicam a vulnerabilidade aos ciberataques em Moçambique.
Baixa Literacia Digital
Grande parte da população usa serviços digitais sem formação básica em segurança. É, afinal, o factor mais determinante.
Software Desactualizado
Muitas empresas e instituições usam sistemas operativos e software sem actualizações de segurança. As razões são, sobretudo, financeiras e técnicas.
Lei Aprovada Mas Ainda Não em Vigor
A aplicação efectiva da lei continua em construção. A Assembleia da República aprovou, a 16 de Abril de 2026, na generalidade, a Lei de Segurança Cibernética e a Lei de Crimes Cibernéticos. Falta, contudo, a votação final, a promulgação, a publicação e a construção de capacidade institucional.
Escassez de Profissionais de Cibersegurança
O país tem poucos especialistas em cibersegurança face à procura. É, igualmente, um dos gaps mais críticos do mercado de trabalho em TI.
Uso Generalizado de Software Pirata
A utilização de cópias não licenciadas é comum. Muitos sistemas não recebem assim actualizações de segurança que corrigem vulnerabilidades conhecidas.
A Nova Lei de Ciberataques em Moçambique em 2026
Em Outubro de 2025, o Conselho de Ministros aprovou as Propostas de Lei de Segurança Cibernética e de Crimes Cibernéticos. A 16 de Abril de 2026, a Assembleia da República aprovou ambas na generalidade.
A Lei de Segurança Cibernética visa dotar o Estado de instrumentos efectivos de resposta a ciberameaças. Em particular, protege sistemas de informação e infraestruturas críticas.
A Lei de Crimes Cibernéticos tipifica condutas criminais digitais e inclui mecanismos de cooperação internacional em matéria penal. As duas leis alinham assim Moçambique com boas práticas internacionais.
Ao mesmo tempo, o Governo iniciou em 2025 o processo de actualização da Estratégia Nacional de Segurança Cibernética 2026-2030. O INTIC lidera este processo, com apoio técnico do Conselho da Europa e de outras parcerias internacionais.
Estratégias de Protecção Contra Ciberataques em Moçambique (Cidadãos)
A prevenção pessoal é a primeira linha de defesa contra ciberataques em Moçambique.
Regra de Ouro: Desconfie Sempre
Se uma oferta parece boa demais para ser verdade, é fraude. Nenhuma empresa legítima pede PIN por telefone ou SMS. Nunca partilhe códigos recebidos por SMS, por nenhum motivo.
Proteja o Seu Dinheiro Móvel
Adopte hábitos básicos de segurança.
- Memorize o PIN. Nunca o escreva no telemóvel ou em papel junto ao cartão SIM.
- Active notificações. Recebe assim aviso imediato de cada transacção.
- Verifique regularmente. Cheque extractos com frequência.
- Não envie dinheiro a desconhecidos. Independentemente da história que contem.
Segurança nas Redes Sociais
Configure bem o Facebook, Instagram, WhatsApp e TikTok.
- Configure privacidade. Reveja quem vê os seus posts e fotos.
- Não aceite desconhecidos. Limite amigos a pessoas que conhece.
- Desconfie de links. Mesmo de amigos, pois as contas deles podem estar comprometidas.
- Nunca partilhe documentos. Jamais fotografe BI, carta de condução ou cartões bancários em chats.
Mantenha os Dispositivos Seguros
Disciplina técnica básica.
- Actualize o sistema. Sempre que surge actualização do Android ou iOS, instale.
- Antivírus de confiança. Em alternativa, use soluções gratuitas reputadas.
- Não instale fora da loja e Evite APKs de fontes desconhecidas.
- Backup regular. Faça cópias dos dados em Google Drive, iCloud, Dropbox ou disco externo.
Estratégias de Protecção Para Empresas
As empresas moçambicanas devem tratar cibersegurança como parte integrante da estratégia, não como custo acessório.
- Formação regular. Simule phishing com os funcionários e ensine boas práticas.
- Firewalls e IDS. Implemente sistemas de detecção de intrusão e firewalls configurados por profissionais.
- Backups diários. Mantenha cópias de segurança em local físico e na nuvem.
- Plano de resposta a incidentes. Documente claramente o que fazer quando um ataque ocorre.
- Auditorias periódicas. Contrate auditoria externa pelo menos anualmente.
Com a aprovação da Lei de Crimes Cibernéticos e a futura lei de protecção de dados, as obrigações de notificação de violações passam a ser legais, não apenas éticas.
O Que Fazer Se For Vítima de Ciberataques em Moçambique
Se suspeita que foi vítima, actue imediatamente. Eis a sequência recomendada.
- Altere palavras-passe e mude todas as credenciais das contas afectadas.
- Contacte a operadora. Ligue à Vodacom, Movitel ou Tmcel para reportar e bloquear serviços comprometidos. Use sempre os contactos do site oficial da operadora.
- Notifique o banco. Informe o banco se houver transacções suspeitas.
- Apresente queixa. Participe o crime à PRM (Polícia da República de Moçambique) e, se aplicável, ao INTIC.
- Documente tudo. Faça capturas de ecrã de mensagens, transacções e qualquer evidência.
- Alerte contactos. Avise a sua rede se alguma conta de rede social foi comprometida, para travar propagação.
Perguntas Frequentes Sobre Ciberataques em Moçambique
Que tipos de ciberataques em Moçambique são mais comuns?
Os ciberataques em Moçambique mais comuns são fraudes via M-Pesa, e-Mola e Mkesh, phishing por SMS e e-mail, SIM swapping, ransomware em empresas e burlas nas redes sociais. A fraude financeira móvel é, de longe, a categoria dominante em número de incidentes.
Moçambique já tem lei contra crimes cibernéticos?
A 16 de Abril de 2026, a Assembleia da República aprovou na generalidade a Lei de Segurança Cibernética e a Lei de Crimes Cibernéticos. Falta, contudo, a votação final, a promulgação e a publicação no Boletim da República para entrada em vigor plena. O quadro legal está em transição.
Como proteger o M-Pesa de fraudes?
Para proteger o M-Pesa, memorize o PIN sem nunca o anotar no telemóvel. Active também as notificações de cada transacção e verifique o extracto com frequência. Nunca partilhe o PIN ou códigos recebidos por SMS, mesmo que o interlocutor diga ser da Vodacom ou de um agente oficial.
Onde denunciar ciberataques em Moçambique?
Os ciberataques podem ser denunciados à PRM (Polícia da República de Moçambique), ao INTIC, à operadora de telecomunicações envolvida e ao banco (em caso de impacto financeiro). É também prudente documentar tudo com capturas de ecrã e guardar mensagens originais, para apoio em eventual queixa formal.
As PMEs moçambicanas estão seguras contra ransomware?
A maioria das PMEs moçambicanas não está suficientemente protegida contra ransomware. Muitas não fazem backups regulares nem têm planos de resposta. Investir em backup diário, formação básica de segurança e software actualizado é, por isso, essencial. O custo da prevenção é muito inferior ao custo de um ataque.
Quantos utilizadores de internet existem em Moçambique?
Em 2025, Moçambique tinha cerca de 6,96 milhões de utilizadores de internet, equivalente a 19,8% da população, segundo o DataReportal. O país contava ainda com 17,7 milhões de ligações móveis e 3,7 milhões de utilizadores activos em redes sociais. A tendência é de crescimento, apesar de oscilações anuais.
Conclusão
Os ciberataques em Moçambique continuam a crescer em volume e sofisticação. Com a aprovação da Lei de Segurança Cibernética e da Lei de Crimes Cibernéticos em Abril de 2026 e a actualização da Estratégia Nacional de Segurança Cibernética 2026-2030, o país dá passos concretos para reforçar a postura digital.
A responsabilidade não é, contudo, apenas institucional. Cada cidadão e cada empresa deve assumir papel activo na protecção do espaço digital moçambicano. Em contrapartida, quem ignora os riscos paga preço alto.

