A Nvidia está em negociações avançadas para fornecer uma garantia financeira de aproximadamente 250 mil milhões de dólares à OpenAI, no âmbito da construção de um megacampus de data centres no Ohio, nos Estados Unidos. A informação, avançada pelo Wall Street Journal e confirmada pela CNBC a 27 de Julho de 2026, descreve um dos maiores compromissos financeiros de sempre no sector tecnológico, e gerou uma reacção imediata e crítica por parte de investidores e analistas.
O mecanismo é este: a OpenAI planeia construir um campus de data centres com capacidade de 10 gigawatts no condado de Pike, no sul do Ohio. A instalação será construída pela SB Energy, a subsidiária energética da SoftBank, num terreno que anteriormente abrigou uma fábrica de enriquecimento de urânio, situado a cerca de 80 quilómetros a sul de Columbus. O custo total do projecto, incluindo chips e infraestrutura, poderá ultrapassar os 500 mil milhões de dólares.
Para financiar uma operação desta escala, a OpenAI precisa de aceder a crédito em condições favoráveis. O problema é que a OpenAI, apesar de ser provavelmente a empresa de inteligência artificial mais valiosa do mundo, continua a ser uma startup privada sem o historial financeiro que os bancos normalmente exigem para empréstimos desta magnitude. É aqui que entra a Nvidia. A garantia da Nvidia, vulgarmente designada por “backstop”, permitiria à OpenAI obter financiamento com taxas de juro mais baixas, utilizando a credibilidade financeira da fabricante de chips como colateral.
É uma proposta que faz sentido do ponto de vista operacional, mas que levanta questões estruturais incómodas. A Nvidia é o principal fornecedor de chips para a OpenAI. Os GPUs da Nvidia são a infraestrutura fundamental sobre a qual os modelos de linguagem da OpenAI são treinados e executados. Quando a OpenAI constrói um data centre, uma parte substancial do investimento vai directamente para a compra de chips Nvidia. Ao garantir o financiamento, a Nvidia está, na prática, a subsidiar a capacidade do seu próprio cliente de comprar os seus próprios produtos.
Os críticos não tardaram a reagir. Michael Burry, o investidor tornado famoso pelo filme “The Big Short” por ter previsto a crise financeira de 2008, comentou: “Around and around we go” (à volta e à volta andamos), sugerindo que o arranjo tem as características de uma circularidade financeira em que o dinheiro roda dentro de um circuito fechado, inflando artificialmente a procura.
A CNBC descreveu a potencial garantia como “mais um golpe contra a tese de investimento em IA”, argumentando que cria dúvidas sobre a sustentabilidade orgânica da procura por chips de IA. Se a Nvidia precisa de garantir o crédito dos seus clientes para que estes possam continuar a comprar-lhe produtos, isso levanta a questão: a procura por GPUs é tão robusta como os preços das acções da Nvidia sugerem, ou é artificialmente sustentada por arranjos financeiros complexos?
A Morningstar, empresa de análise financeira, publicou uma nota reconhecendo que o acordo “levanta receios de circularidade”, mas argumentando que as acções da Nvidia continuam subvalorizadas com base nos fundamentais da empresa. O mercado, contudo, reagiu com nervosismo. As acções de empresas de semicondutores caíram nas sessões seguintes, e a Fortune relatou um cenário de “bastante pânico em torno do investimento em IA” entre traders de Wall Street.
O projecto do Ohio, se concretizado, seria de uma escala sem precedentes. Dez gigawatts é o equivalente à capacidade energética de uma cidade de média dimensão. A escolha de um terreno de enriquecimento de urânio desactivado não é acidental: o local já dispõe de ligações eléctricas de alta capacidade, essenciais para alimentar os milhares de servidores que um data centre desta dimensão exige. A SB Energy, a subsidiária da SoftBank responsável pela construção, terá de desenvolver infraestrutura energética adicional para suportar a operação.
A transacção, caso se concretize, redefiniria a relação entre fabricantes de hardware e empresas de inteligência artificial. Tradicionalmente, os fornecedores de chips vendem componentes e os clientes financiam as suas próprias operações. O modelo que a Nvidia e a OpenAI estão a negociar é fundamentalmente diferente: o fornecedor torna-se garante financeiro do cliente, criando uma interdependência que vai muito além da relação comercial habitual. Se a OpenAI algum dia não conseguir pagar, a Nvidia assume a responsabilidade. Se a Nvidia se tornar garante, terá um interesse directo em que a OpenAI continue a gastar.
Para quem acompanha o sector tecnológico, este tipo de arranjo financeiro evoca paralelos incómodos. A história do Silicon Valley está repleta de momentos em que fornecedores e clientes criaram relações circulares que, vistas de fora, pareciam perfeitamente lógicas, até ao momento em que deixaram de funcionar. A bolha das telecomunicações do início dos anos 2000, em que empresas de equipamento financiavam os seus próprios clientes para que estes comprassem mais equipamento, é talvez o paralelo mais directo.
A diferença, argumentam os defensores do acordo, é que a procura por infraestrutura de IA é real e crescente. A OpenAI, a Google, a Meta, a Amazon e a Microsoft estão todas a expandir maciçamente as suas capacidades de computação. Os data centres são a infraestrutura física da revolução da inteligência artificial, e quem os constrói primeiro terá uma vantagem competitiva duradoura.
O que está em causa não é se os data centres são necessários. São. A questão é se a forma como estão a ser financiados cria riscos sistémicos que só se tornarão visíveis quando for tarde demais. Por enquanto, as negociações prosseguem. O resultado definirá, em boa medida, como o sector da inteligência artificial se financia na próxima década.

