Há uma assimetria conhecida no investimento em tecnologia africana: a maior parte do capital vai para quatro mercados: Nigéria, Quénia, África do Sul e Egipto. Para o resto do continente, o financiamento tem sido escasso, anedótico, intermitente. A 19 de Maio, em Paris, a Digital Africa anunciou um fundo de US$58 milhões que se posiciona, abertamente, contra essa concentração.
A Digital Africa é uma iniciativa do governo francês, gerida pela Agence Française de Développement (AFD), e existe desde 2018 com o objectivo de catalisar a economia digital em África. Já fez dezenas de investimentos em vários sectores e mantém uma rede de aceleradoras e programas de mentoria em vários países. Este novo veículo é o maior que a organização levantou até hoje, e o que tem foco mais explícito em mercados fora dos grandes hubs. O fundo é gerido pela equipa parisina mas opera com staff em vários escritórios africanos.
O fundo cobre seis áreas: Inteligência Artificial aplicada a sectores produtivos, fintech, e-health, climate-tech, espaço e satélites, e infra-estrutura digital. Os tickets típicos vão de US$200 mil a US$2 milhões em estágio seed, combinam capital próprio com instrumentos convertíveis, e trazem acompanhamento técnico da rede da AFD. Há, portanto, dinheiro e capacidade de execução, em proporções pensadas para o estágio mais arriscado.
Por que mercados subatendidos
A escolha geográfica responde a uma crítica antiga ao ecossistema. Países como Moçambique, Senegal, Camarões, Costa do Marfim ou Etiópia têm gerado empresas com tracção real, mas continuam quase invisíveis para o capital pan-africano e internacional. O argumento é defensivo no curto prazo, com menos competição entre fundos, e estratégico no longo: estes mercados crescem mais lentamente em volume, mas têm verticais menos saturadas e menos pressão de exit prematuro.
O que muda para Moçambique
Para o ecossistema moçambicano, a entrada da Digital Africa abre uma janela de capital internacional historicamente difícil de aceder. Empresas como o Simulador Bancário, distinguido pela Yale Africa Startup Review 2026, a MozBioMed.AI, criadora da MALI.AI, ou startups emergentes em saúde digital, fintech e clima, encaixam em pelo menos uma das seis áreas prioritárias. A questão é se vão saber posicionar-se para concorrer: preparação de pitch, capacidade de tracção comprovada, materiais financeiros em standards internacionais. O capital existe; o filtro continua a ser quem está pronto.
Numa fase difícil
O lançamento da Digital Africa acontece num momento sombrio para o equity africano. Até meados de Maio, as startups do continente acumulavam apenas US$708 milhões, abaixo do ritmo dos anos anteriores. A subida do peso da dívida no mix e a queda das rondas de seed têm castigado os ecossistemas mais pequenos. Em contexto comparativo, este fundo é dos poucos sinais positivos que cabem na narrativa de 2026.
A equipa que faz as decisões
A Digital Africa é gerida por uma equipa com forte presença em Paris e escritórios em vários mercados africanos. Eric Asuelime lidera o investment team. Jacob Kotzee acompanha as operações em mercados anglófonos. E vários parceiros séniores baseados em Dakar, Nairobi, Lagos e Joanesburgo asseguram presença local em rondas concretas. A combinação de capacidade central e presença regional tem sido considerada modelo de gestão por outras instituições de desenvolvimento que tentam replicar o efeito numa escala diferente. A equipa mantém também ligações regulares com aceleradoras, programas de mentoria e fundos pan-africanos, no sentido de identificar empresas em estágios anteriores aos das primeiras rondas.
Fonte: Disrupt Africa.

