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Quando o engenheiro veste fato, Moçambique perde um técnico


Opinião de Guidione Machava sobre carreiras, promoções e a maldição do 'manager' no sector tecnológico moçambicano: por que precisamos de tecnólogos, não de políticos da tecnologia.

Quando o engenheiro veste fato, Moçambique perde um técnico

Opinião sobre o engenheiro moçambicano: carreiras, promoções e a maldição do “manager” no sector tecnológico. Por Guidione Machava.

Há um padrão que se repete nas empresas de tecnologia em Maputo, na Matola, e em qualquer escritório onde se escreva código neste país: ao fim de seis ou sete anos de carreira, todo o engenheiro decente é “promovido” para gestor. Deixa de mexer em código. Começa a vestir fato. Passa a fazer reuniões. E, sem se dar conta, deixa de ser engenheiro.

Quando vejo um engenheiro a aparecer de fato e gravata numa empresa de software, sei imediatamente uma coisa: aquele engenheiro foi vendido. Vendido pela empresa, vendido pelo mercado, e muitas vezes vendido por ele próprio.

O que o engenheiro aprende em França

Trabalhei em França e vi como funciona um ecossistema tecnológico maduro. A primeira coisa que se aprende é simples: as empresas só dão saltos verdadeiros quando têm pessoas muito séniores, muito técnicas, com vinte anos a fazer a mesma coisa, cada vez melhor.

Lá, um staff engineer ou um principal engineer recebe salários que muitos directores moçambicanos não vêem em três anos e nunca, nem uma vez, gere pessoas. Não tem subordinados. Não preside a comités. Não anda a aprovar férias de ninguém. O que faz é resolver problemas que mais ninguém na empresa consegue resolver. É essa a sua moeda.

Esse modelo o chamado individual contributor track, ou carreira técnica paralela é o que separa um país que produz tecnologia de um país que consome tecnologia. E nós, neste momento, estamos firmemente do lado errado.

O problema moçambicano: fabricamos políticos da tecnologia

Em Moçambique, o engenheiro bom é castigado com uma promoção. A empresa olha para um programador competente e pensa: “este miúdo é bom, vamos pô-lo a chefiar a equipa”. E, num instante, perde-se o melhor técnico para se ganhar mais um gestor medíocre, porque gerir pessoas é uma profissão completamente diferente de escrever software, e quase ninguém é bom a fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

O resultado é o que se vê: empresas tecnológicas moçambicanas onde quase ninguém, na liderança, ainda toca em código. Onde as decisões técnicas são tomadas em PowerPoint, por pessoas que já se esqueceram da diferença entre uma base de dados e uma folha de Excel. Onde o caminho para ganhar bem é deixar de fazer aquilo em que se é bom.

Estamos a construir um país de políticos da tecnologia. Não de tecnólogos. E há uma diferença enorme.

O político da tecnologia anda em conferências. Faz painéis. Fala em “transformação digital”, “inovação”, “ecossistema”. Aparece nas fotografias. O tecnólogo está sentado a corrigir um bug às onze da noite porque o sistema cai e ninguém mais sabe porquê. Adivinhem qual dos dois é que faz o país avançar. Como reflectiu a secção de opinião da Kabum Digital, o engenheiro precisa de uma carreira técnica longa uma ideia que o StaffEng tem ajudado a divulgar globalmente.

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