Quando uma família recebe o diagnóstico de demência de alguém que ama, o que se segue é quase sempre o mesmo: confusão, medo e uma solidão esmagadora. Não existe um manual. Não existe uma aplicação que organize o caos. Não existe, na maioria dos casos, ninguém que diga “isto é o que tens de fazer agora”. É exactamente este vazio que a SARA quer preencher.
A SARA é uma plataforma digital que está a ser desenvolvida por cinco estudantes universitários em Portugal com um objectivo simples mas ambicioso: ajudar famílias que cuidam de pessoas com demência a organizar consultas, registar a evolução da doença e partilhar informação com médicos de família e neurologistas. Entre os cinco estudantes que a constroem está Flávio Magalhães, moçambicano, que trabalha nas áreas de produto, sistemas e design do projecto.
O lema do projecto resume a sua razão de existir: “Nenhuma família devia cuidar sozinha.” E os números explicam porquê. Existem cerca de 57 milhões de pessoas diagnosticadas com demência em todo o mundo. Só em Portugal, são aproximadamente 240 mil. Apesar da dimensão do problema, o apoio dirigido às famílias cuidadoras continua a ser limitado, fragmentado e, em muitos casos, inexistente.
O que a SARA faz
A plataforma foi pensada para intervir no período pós-diagnóstico, a fase em que as famílias mais precisam de orientação e em que menos apoio encontram. Entre as funcionalidades previstas estão um calendário para registar consultas, actividades e episódios médicos, um espaço para os cuidadores anotarem observações sobre a evolução diária da pessoa diagnosticada, e a geração de relatórios que podem ser partilhados directamente com os profissionais de saúde que acompanham o caso.
Segundo Rita Graça, responsável executiva do projecto, muitas famílias ainda fazem este acompanhamento de forma totalmente manual, recorrendo a cadernos para anotar o que acontece no dia a dia. A SARA pretende simplificar e automatizar parte desse processo, reunindo “informação, tarefas e orientações de forma simples e intuitiva”.
É uma ideia que parece óbvia, mas que até agora ninguém tinha transformado em produto. O facto de ter nascido de uma experiência pessoal de uma das fundadoras, que mais tarde percebeu que o problema era muito mais amplo do que a sua própria família, dá ao projecto uma autenticidade que raramente se encontra em iniciativas universitárias.
De um concurso de ideias à European Innovation Academy
O projecto começou em Abril de 2026, quando Rita Graça e quatro outras pessoas ficaram em segundo lugar num concurso de ideias. A equipa reformulou-se para a European Innovation Academy, um programa internacional dedicado a projectos inovadores na área da saúde, que decorreu no Porto, no Edifício Abel Salazar.
A equipa actual é composta por cinco estudantes de três universidades portuguesas: a Universidade Nova de Lisboa, a Universidade do Porto e o Instituto Superior Técnico. No Porto, além de Rita Graça, têm trabalhado Madalena Videira, João Moutinho e Flávio Magalhães, cada um com responsabilidades nas várias áreas de produto, sistemas e design.
A presença de Flávio Magalhães na equipa acrescenta uma dimensão que vai além do projecto em si. Um jovem moçambicano a participar na construção de uma plataforma de saúde digital em Portugal, no âmbito de um programa europeu de inovação, é um sinal de que o talento do país consegue posicionar-se em circuitos internacionais quando encontra as condições certas.
Um dos princípios que a equipa definiu desde o início é que a plataforma deve ser gratuita para os utilizadores. Para viabilizar este modelo, os estudantes estão a contactar hospitais, associações de apoio à demência, autarquias e seguradoras para estabelecer parcerias institucionais que financiem o projecto sem transferir custos para as famílias.
A SARA encontra-se actualmente em fase de testes com algumas famílias e em acesso antecipado, com a intenção de disponibilizar a plataforma ao público mais amplo ainda em 2026. É uma ambição modesta na formulação e enorme na execução, e o facto de estar a ser construída por estudantes universitários, incluindo um moçambicano, torna-a numa história que merece ser acompanhada.

