Por Ismael GraHms
Um erro de modelação na relação entre academia e indústria.
A ideia de que uma função industrial é definida pelo nome do curso universitário não se sustenta na maioria das indústrias. Já ouvi pessoas dizerem que só se pode ser Engenheiro de Software se se tiver estudado Engenharia de Software na universidade. É uma relação de um para um e, na minha opinião, provavelmente a forma mais frágil e limitada de modelar a ligação entre academia e indústria.
O que acontece na prática é algo muito mais multidimensional. As funções industriais emergem de uma combinação de disciplinas, metodologias, responsabilidades, experiência e especialização, e não de um único título associado a um curso.
Albert Einstein e muitos outros cientistas e engenheiros lendários ilustram o ponto. Einstein formou-se em matemática e física na Politécnica de Zurique; não existia, nem existe, um curso chamado Ciência. Era cientista porque dominava disciplinas científicas e desempenhava esse papel com consequência.
Existem até cursos universitários cujos nomes já não correspondem diretamente a funções industriais. Engenharia Informática, por exemplo, é cada vez mais uma base académica do que um cargo profissional. Quase ninguém abre o LinkedIn à procura de um Engenheiro Informático. Procuram-se Engenheiros de Software, Engenheiros de Segurança, SREs, Engenheiros de Dados, Engenheiros de Machine Learning e dezenas de outras especializações que nasceram das mesmas raízes académicas.
O complexo industrial evolui através da especialização muito mais rapidamente do que as universidades conseguem evoluir através da revisão curricular. Profissões inteiras surgem antes de existirem cursos dedicados a elas. Se o nome do curso fosse a fonte da legitimidade profissional, a indústria teria de parar de evoluir sempre que a academia ficasse para trás.
E nem é uma cena de «corrigir a academia». Academia e indústria operam em escalas temporais completamente diferentes. As universidades reformulam currículos ao longo de anos. As indústrias adaptam-se em meses. Seria impossível redesenhar cursos sempre que surgisse uma nova especialização, uma nova tecnologia ou uma nova função industrial.
A realidade é que as universidades produzem disciplinas e fundamentos. A indústria produz funções e especializações. E a correspondência entre uma coisa e outra torna-se cada vez menos direta à medida que a especialização aumenta.

