Por Suely Buque
O futuro digital está a ser construído agora. Mas quem está a decidir como será esse futuro?
Quando falamos sobre mulheres na tecnologia, a conversa costuma começar pela mesma pergunta: como conseguimos colocar mais mulheres neste sector? É uma pergunta importante, mas talvez já não seja suficiente. Não precisamos apenas de mais mulheres a trabalhar em tecnologia. Precisamos de mais mulheres a participar nas decisões sobre a tecnologia que estamos a construir.
Quem decide quais problemas merecem ser resolvidos? Quem define para quem uma solução é criada? Quem escolhe o que é prioridade quando desenhamos uma plataforma, uma aplicação ou um serviço digital? Estas decisões não são neutras. E quem participa nelas influencia, inevitavelmente, a tecnologia que chega às nossas mãos.
Não basta estar na sala
Durante muito tempo, falar sobre mulheres na tecnologia significou falar sobre representação. Quantas mulheres estudam Engenharia Informática? Quantas trabalham como programadoras? Quantas ocupam cargos de liderança em empresas tecnológicas? Mas existe uma dimensão da representação que merece mais atenção: quem tem poder para decidir?
Uma tecnologia pode ser tecnicamente excelente e, ainda assim, não responder às necessidades de uma parte significativa das pessoas que a vão utilizar. Isto pode acontecer porque essas pessoas não estiveram presentes quando o problema foi definido, o produto foi desenhado ou as decisões foram tomadas.
Imaginemos um produto desenvolvido exclusivamente por homens para um público masculino. É possível que seja uma excelente solução para muitos dos seus utilizadores. Mas será que, sem diferentes perspectivas no processo de desenvolvimento, foram consideradas todas as necessidades das mulheres que também poderão utilizá-lo?
O mesmo acontece no sentido inverso. Um produto pensado exclusivamente por mulheres para mulheres pode responder muito bem a determinadas necessidades femininas, mas não necessariamente às experiências e necessidades de todos os homens.
O ponto não é dizer que homens só conseguem compreender homens ou que mulheres só conseguem compreender mulheres. É reconhecer que experiências diferentes podem levar-nos a identificar problemas diferentes e a fazer perguntas diferentes.
É aqui que a diversidade deixa de ser apenas uma questão de números. Ter mulheres numa equipa não garante automaticamente uma tecnologia melhor. Mas reunir diferentes experiências, perspectivas e formas de olhar para um problema aumenta a possibilidade de identificar questões que, de outra forma, poderiam nunca ser consideradas. E, muitas vezes, uma boa solução começa precisamente por fazer a pergunta certa.
O impacto de uma tecnologia mais diversa
A forma como uma tecnologia é pensada e desenvolvida tem impacto directo na vida das pessoas que a utilizam. Quando diferentes experiências são consideradas desde o início, torna-se mais fácil identificar necessidades que poderiam ser ignoradas, antecipar dificuldades e criar soluções mais acessíveis, relevantes e adequadas a diferentes contextos.
Não se trata de dizer que uma mulher, por ser mulher, vai automaticamente criar uma tecnologia melhor para todas as mulheres. Isso seria simplificar demasiado a questão. Trata-se de reconhecer que quanto mais diversas forem as pessoas envolvidas na criação de uma tecnologia, maior é a possibilidade de diferentes experiências serem consideradas antes de a tecnologia chegar aos seus utilizadores.
Uma equipa com perspectivas variadas pode questionar decisões aparentemente óbvias, identificar limitações e perceber que uma solução pensada para determinado grupo pode não funcionar da mesma forma para todos.
O impacto não está apenas no produto final. Está também na possibilidade de criar tecnologias mais inclusivas, responsáveis e próximas da realidade das pessoas.
Mas quem consegue chegar à mesa?
Não basta dizer às mulheres para “entrarem na sala” se nem todas tiveram acesso às mesmas oportunidades para chegar até ela. Educação, mentoria, redes profissionais, financiamento e oportunidades de liderança continuam a influenciar quem consegue transformar uma ideia numa empresa, ocupar uma posição de liderança ou participar nas decisões que definem o futuro tecnológico.
No empreendedorismo tecnológico, ter uma boa ideia é apenas uma parte da equação. É preciso também ter acesso a capital, contactos, conhecimento e oportunidades para a transformar numa solução real.
Por isso, aumentar a participação das mulheres na tecnologia não pode significar apenas incentivar mais raparigas a estudar áreas STEM. Precisamos também de criar condições para que possam avançar dentro dessas áreas e chegar aos espaços onde as decisões são tomadas.
“Mulheres” não é uma experiência única
As mulheres não formam um grupo homogéneo. Uma estudante universitária em Maputo, uma empreendedora numa cidade provincial e uma rapariga de uma comunidade rural podem ter necessidades e experiências muito diferentes em relação à tecnologia.
Por isso, a presença de algumas mulheres numa equipa não garante, por si só, que todas as perspectivas femininas estejam representadas. É preciso considerar as diferenças de idade, condição econômica, educação, acesso à internet e experiência profissional.
Quanto mais variadas forem as experiências envolvidas na criação de uma tecnologia, maior será a possibilidade de desenvolver soluções adequadas a uma sociedade igualmente diversa.
Em Moçambique, esta conversa é particularmente relevante
Falamos cada vez mais de transformação digital, empreendedorismo tecnológico e do futuro das competências digitais. Queremos preparar os jovens para participar nessa transformação, mas isso não pode significar apenas aprender a utilizar as ferramentas que já existem.
Precisamos também de criar espaço para que os jovens, em particular, as raparigas, possam construir, questionar e decidir quais serão as ferramentas de amanhã. Para isso, são necessárias oportunidades de formação e mentoria, caminhos para posições de liderança e acesso a financiamento e redes profissionais.
Quando uma rapariga entra numa sala onde se discute tecnologia, pode trazer uma experiência, uma necessidade ou uma pergunta que ainda não tinha sido considerada. Por isso, não basta garantir a presença das mulheres: é preciso assegurar que têm voz nas decisões sobre o que construir, para quem e porquê.
Em vez de perguntarmos apenas “Como colocamos mais mulheres na tecnologia?”, talvez devêssemos começar a perguntar: “Como garantimos que mais mulheres estão onde as decisões tecnológicas são tomadas?”
Porque o futuro digital não será definido apenas por quem sabe escrever código. Será definido por quem identifica os problemas, faz as perguntas e decide quais soluções merecem ser construídas.
Queremos mais mulheres na tecnologia, sim. Mas queremos também mais mulheres a imaginar, construir e decidir a tecnologia que irá moldar o nosso futuro.
Não basta preparar mulheres para entrar no futuro digital. Precisamos garantir que elas também tenham voz para o construir.

