Entre os dias 15 e 17 de Abril de 2026, Maputo tornou-se o epicentro de uma conversa que o país adiou por demasiado tempo. O primeiro Congresso de Saúde Digital em Moçambique reuniu especialistas nacionais e internacionais para debater os desafios, os avanços tecnológicos locais e o impacto crescente da inteligência artificial na área médica. O tom do encontro foi claro: a digitalização da saúde não é uma opção. É uma urgência.
O Ministro da Saúde, Ussene Isse, encerrou o evento afirmando que o congresso representou um verdadeiro marco na história recente do sector da saúde em Moçambique e que a saúde digital é uma realidade concreta, possível e necessária. Palavras que soaram como uma declaração de intenções num sistema de saúde ainda marcado por profundas assimetrias territoriais.
A plataforma que já forma milhares
Antes do congresso de Abril, o Ministério da Saúde (MISAU) e o INTIC já tinham dado passos concretos. A plataforma Telessaúde MZ, lançada em 2018, disponibiliza actualmente 28 cursos em linha e conta com mais de seis mil profissionais de saúde inscritos, constituindo uma oportunidade concreta para ampliar o acesso à formação e reduzir as desigualdades que ainda persistem entre as diferentes regiões do país.
É uma mudança de paradigma silenciosa mas poderosa: um enfermeiro no Niassa pode hoje frequentar o mesmo curso que um colega em Maputo, sem custos de deslocação nem ausência prolongada do posto de trabalho. O INTIC destacou que a integração da IA e da telessaúde abre portas para uma saúde mais inclusiva, eficiente e acessível, sobretudo para populações em zonas remotas, representando um passo decisivo para o fortalecimento da soberania digital no sector da saúde.
A IA entra nas clínicas
O debate sobre inteligência artificial na saúde moçambicana saiu do registo teórico e começa a ganhar contornos práticos. Durante o congresso, a Ninsaúde apresentou a Maria, uma assistente virtual baseada em IA integrada ao ecossistema de gestão clínica, concebida não para substituir profissionais, mas para reduzir a carga operacional, automatizar tarefas e melhorar a eficiência da rotina clínica. O conceito agradou. Num contexto de escassez crónica de recursos humanos na saúde, ferramentas que libertam tempo dos profissionais para o que realmente importa, o doente, têm um valor imediato e mensurável.
A IA já opera também no diagnóstico por imagem, com soluções internacionais a serem testadas em contexto moçambicano para interpretação automatizada de exames, um sector crítico num país onde os radiologistas são poucos e estão concentrados nas cidades.
“A saúde digital não é uma visão distante, é uma realidade concreta, possível e necessária.”
Ussene Isse, Ministro da Saúde de Moçambique, Congresso de Saúde Digital, Abril 2026
Os obstáculos que nenhum algoritmo resolve sozinho
O entusiasmo é real, mas os desafios também. O próprio MISAU reconhece as fragilidades estruturais: dispersão das iniciativas de digitalização, falta de interoperabilidade entre sistemas, fraca cultura digital entre funcionários de saúde e risco de aprofundamento das desigualdades no acesso se as iniciativas não forem acompanhadas de medidas de inclusão digital.
A estes juntam-se outros obstáculos de fundo: cortes no financiamento externo da saúde, escassez de medicamentos em várias unidades sanitárias e constrangimentos estruturais que o próprio Ministério admitiu em Fevereiro de 2026, afectando o funcionamento de várias unidades sanitárias no país. Digitalizar um sistema com estas fragilidades exige mais do que aplicações e plataformas. Exige vontade política, financiamento sustentado e uma estratégia que não deixe ninguém para trás.
Um sistema que quer evoluir
A direcção, porém, é inequívoca. O congresso de Abril serviu para consolidar compromissos e definir prioridades estratégicas, com o reconhecimento de que o modelo actual precisa de evoluir e de que a saúde digital é a via para essa transformação. Em Moçambique, onde um médico pode servir dezenas de milhares de pessoas, a tecnologia não é um extra. É o que pode fazer a diferença entre um diagnóstico atempado e uma vida perdida. E esse peso, o ano de 2026 parece finalmente estar a levá-lo a sério.
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Fontes: MISAU; INTIC; Ninsaúde; Congresso de Saúde Digital, Maputo, Abril 2026

