Moçambique está hoje muito mais preparado para ciberataques do que há cinco anos, mas ainda não o suficiente. Segundo o Banco Mundial, a nota do país no Índice Global de Cibersegurança da União Internacional das Telecomunicações (UIT) subiu de 24,18 em 2020 para 66,1 em 2024, acima da média africana de 57 pontos, graças a novas leis, à criação de uma equipa nacional de resposta a incidentes e a 11 milhões de dólares investidos em cibersegurança. Ao mesmo tempo, o país registou 173.770 ciberataques só em 2024, de acordo com o ITWeb Africa, e o mapeamento das infra-estruturas críticas ainda está em curso. A resposta honesta é, portanto, um “sim, cada vez mais”, com trabalho por terminar.
Que ameaças enfrenta Moçambique?
A lição mais dura não veio de hackers, veio de um contrato. Em 2018, a SIMORede, a rede nacional de pagamentos electrónicos, parou devido a um litígio de licenciamento com o fornecedor do software, segundo o Banco Mundial. De um dia para o outro, hospitais, escolas, hotéis e empresas ficaram sem conseguir processar pagamentos electrónicos. Foi como se todas as caixas de multibanco e POS do país tivessem sido desligados ao mesmo tempo, sem um único ataque informático. O episódio mostrou que a resiliência digital não é só defesa contra criminosos, é também não depender de um único ponto de falha.
As ameaças clássicas também crescem. De acordo com o ITWeb Africa, os 173.770 ataques registados em 2024 geraram 1.061 processos criminais, e o primeiro semestre de 2025 somou mais 36.330 ataques, num país onde o mobile money e os serviços públicos digitais tocam cada vez mais vidas.
O que já foi construído?
Mais do que parece. Segundo o Banco Mundial, Moçambique criou a CSIRT nacional, a equipa de resposta a incidentes de segurança informática que funciona dentro do Instituto Nacional de Tecnologias de Informação e Comunicação (INTIC). Pense nela como o corpo de bombeiros digital do país, que é chamado quando um sistema público ou privado está a arder. A equipa foi integrada no programa de bolsas Suguru Yamaguchi da FIRST, a rede mundial de equipas de resposta, e participa em exercícios regionais de simulação de ataques com a AfricaCERT.
No plano legal, a Assembleia da República aprovou por unanimidade a Lei de Cibersegurança em Abril de 2026, de acordo com o Banco Mundial, acompanhada da Lei do Cibercrime. No plano financeiro, foram destinados 11 milhões de dólares especificamente à cibersegurança, com apoio do fundo fiduciário multi-doadores de cibersegurança do Banco Mundial. E o Projecto de Aceleração Digital de Moçambique (MDAP) pretende ligar 300 localidades até agora sem cobertura, dar acesso à banda larga a 5,2 milhões de pessoas e equipar 1.000 instituições de ensino com tecnologias digitais, segundo a mesma fonte.
Que lacunas ainda existem?
Três sobressaem na análise do Banco Mundial. Primeiro, o mapeamento das infra-estruturas críticas de informação, ou seja, identificar quais os sistemas cuja falha pararia o país, ainda está em curso. Sem esse mapa, é difícil saber o que proteger primeiro. Segundo, a abordagem de conformidade será faseada e baseada no risco, o que significa que muitas instituições ainda estão longe de cumprir os novos requisitos. Terceiro, faltam pessoas. Formar especialistas leva anos, e é por isso que a aposta em bolsas internacionais e exercícios regionais é tão importante quanto comprar equipamento.
Porque é que isto importa para empregos e confiança?
Porque a economia digital só cresce onde há confiança. Segundo o Banco Mundial, a resiliência digital afecta directamente o emprego jovem, o alcance dos pequenos negócios e a confiança dos cidadãos nos serviços essenciais. Um jovem que vende pela Internet, uma vendedeira que recebe por mobile money e um doente que depende do sistema informático do hospital estão todos expostos quando os sistemas falham. O blackout da SIMORede em 2018 provou que um único incidente pode travar hospitais e escolas ao mesmo tempo. Cada ponto ganho no índice da UIT é, na prática, um argumento a mais para investidores e parceiros confiarem nas plataformas moçambicanas.
O que muda para si
- Há um número para onde os ataques vão. A CSIRT nacional, no INTIC, é a entidade que responde a incidentes informáticos graves no país.
- Os serviços que usa ficam mais vigiados. Bancos, operadoras e serviços do Estado terão de cumprir requisitos de segurança faseados, conforme o risco.
- Mais cobertura, mais cuidado. Se vive numa das 300 localidades a ligar pelo MDAP, vai entrar na Internet já sob o novo quadro legal de protecção.
- Oportunidade de carreira. A escassez de especialistas em cibersegurança faz desta uma das áreas digitais com mais futuro em Moçambique.
Fontes
- Protecting Mozambique’s digital future: Cyber resilience for jobs, trust, and growth — World Bank Blogs (2026)
- Mozambique Parliament Approves Cybersecurity and Cybercrime Laws to Strengthen Digital Governance — TechAfrica News (17 de Abril de 2026)
- Mozambique passes landmark cybercrime laws — ITWeb Africa (20 de Abril de 2026)

